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1 Junho 2008 - 00h00

Norte contra Sul: O longo combate de Pinto da Costa com a bandeira do FC Porto

30 anos em guerra

Apavorada pela reacção do FC Porto à luta contra a corrupção no futebol português, a Federação Portuguesa de Futebol montou o ambiente propício à batalha final da longa guerra que opõe o Norte futebolístico ao Sul hegemónico deste país. O próximo campeonato está ameaçado por um clima de agressividade, incompreensão e falta de escrúpulos desportivos que pode alastrar para a sociedade, agora que terminou o torpor agridoce oferecido pela selecção no Europeu, enquanto os beligerantes iam carregando as armas.

Será o corolário para 30 anos de escaramuças e conflitualidade provinciana, entre um clube com dificuldade para assumir a grandeza conquistada e outro cada vez mais confundido pela grandeza genética. Um quer parecer maior do que é e denota dificuldades em dominar o monstro em que se transformou. O outro tem sofrido tantos desvios ideológicos que já só raramente consegue estar à altura do passado.

A guerra FC Porto-Benfica que está a ser preparada nos bastidores e que vai ter campo a partir de Agosto próximo pode, em todo o caso, servir para acabar, de uma vez, com a podridão moral em que o jogo tem vivido ao longo destas últimas décadas. O processo ‘Apito Dourado’ e a divulgação das escutas telefónicas tiveram o mérito de confirmar a prática de uma sociedade sórdida e fundada em ‘princípios’ de corrupção moral e tráfico de influências. Está à vista de todos e de tal forma enraizada nos procedimentos, que de facto não pode ser traduzida neste ou naquele jogo, neste ou naquele penálti, neste ou naquele fora-de-jogo.

Os que defendem que o FC Porto não precisa, hoje, dos favores explícitos dos árbitros para vencer pontualmente adversários de fraco gabarito, como o E. Amadora, têm razão. Ao fim de tantos anos, a família futebolística – incluindo adversários, dirigentes federativos e, muito particularmente, toda a estrutura arbitral e disciplinar – interiorizou a dependência moral do poder que emana da Torre das Antas. Tempo houve em que era aceite como algo inevitável, uma espécie de custos do sistema, o pagamento de viagens ao Brasil ou de 500 contos por ‘pequenos’ favores, que denunciaram a incompetência de árbitros como Carlos Calheiros ou José Guímaro.

E os erros imprudentes dos árbitros e dirigentes denunciados agora pelas investigações do ‘Apito’ resultam de muitas épocas de absoluta impunidade e ausência de oposição crítica – que resultou no castigo absurdo de perda de seis pontos para um crime de corrupção.

O que parece ter mudado foi a combatividade do opositor de ocasião, Luís Filipe Vieira, o mais voluntarioso ‘inimigo’ de sempre de Pinto da Costa, beneficiando de uma época em que o velho líder portista se apresenta já muito desgastado pela idade e pelas traições da vida passional. Vieira tem dado força e inspiração a um Ministério Público finalmente digno do seu dever e a instâncias jurídico-desportivas com mais competências e menos compadrio.

Quando apelou à "justiça divina", Pinto da Costa deu os primeiros sinais de dificuldade em enfrentar este adversário desconhecido, a Justiça, num teatro de guerra aberta, nada propício a um guerrilheiro perante adversários que ameaçam utilizar a bomba atómica da descredibilização pública. Pinto da Costa está debilitado: já só pode ser ilusoriamente salvo por um Conselho de Justiça ainda menos credível.

O SUL CONTA AS SUAS BAIXAS

A falta de hábito de arruaça apanhou Benfica (e Sporting) desprevenidos no final dos anos 70 e não pára de fazer vítimas.

A BOMBA DO ROUBO DE IGREJAS

Quando Pedroto lançou o grito dos "roubos de Igreja", Romão Martins só conseguiu responder com a revelação do compadrio entre o treinador e o árbitro Manuel Vicente, um dos pioneiros do ‘sistema’, mas não tinha estofo para uma guerra tão imoral e acabou na presidência da FPF.

GOLO DE MANACA E OS MAFIOSOS

Pinto da Costa insinuou que o Sporting tinha sido campeão com um autogolo ‘comprado’ de Manaca e no Porto lançaram panfletos sugerindo a prisão dele e do presidente João Rocha. Este respondeu que era preciso "acabar com os mafiosos do futebol". Não foi ouvido.

O ‘APITO DOURADO’ 20 ANOS ANTES

Gaspar Ramos travou resistência longa e corajosa, mas com uma retaguarda mal organizada e desgastada pelos resultados desportivos. Não conseguiu passar as denúncias ao ‘bàs fond’ dos anos 80, quando os serviços de António Garrido ao FC Porto perturbavam os benfiquistas.

REINANDO EM MEIO DIVIDIDO

A luta errática com ar de desculpas de mau perdedor repete-se com Filipe Vieira, com uma agravante relativamente a Gaspar Ramos. Tem dificuldade em convencer os próprios benfiquistas, facilitando o princípio da arte da guerra nortenha, concebida por Pedroto: dividir para reinar.

A RIVALIDADE MAIS VIOLENTA

José Maria Pedroto e Mário Wilson protagonizaram, no final dos anos 70, a mais violenta das rivalidades, com o portista a vilipendiar o benfiquista com ofensas de natureza racista. Wilson reagiu com alusões ao alinhamento político do adversário e acabou alvo de uma ‘fatwa’ que o proibiu de entrar nas Antas, decidida em assembleia geral do FC Porto.

O EIXO DO MAL

Inocêncio Calabote, 1959, irradiado

Foi irradiado porque prolongou um jogo do Benfica quatro minutos, mas nunca ninguém o acusou de qualquer conduta ilícita ou prática de corrupção. Ao contrário do que Pinto da Costa fez acreditar quando desenterrou o nome de Calabote para dar cobertura à teoria da conspiração, naquele ano o FC Porto é que foi campeão com um golo marcado depois da hora.

Francisco Silva, 1990, irradiado

Com o advogado portista Lourenço Pinto no papel de justiceiro, o ‘Penafielgate’ acabou com a carreira do árbitro que deu fama ao Canal Caveira e foi condenado por corrupção, sem que se tivesse descoberto o corruptor. Se fosse hoje, as denúncias de que Pinto da Costa lhe disse que ele lhe devia a promoção internacional constituiriam um bom tema para as investigações do ‘Apito’.

Augusto Duarte, 2008, suspenso 6 anos

Filho de árbitro e bom conhecedor do ‘milieu’, foi apanhado por causa de um cafezinho bem intencionado. Há quem não consiga perceber a necessidade de ‘comprar’ um árbitro quando se tem a superioridade desportiva do FC Porto. Mas a conduta revelada pelas escutas é típica dos casos de abuso de confiança e promiscuidade de muitos antecessores ao longo dos últimos 20 anos.

NOTAS

COMBATE REGIONAL

Concentração obsessiva de poder, incluindo ‘caças às bruxas’ internas, com depurações frequentes, ironicamente baseada na ideia de combate ao centralismo administrativo e político.

SISTEMA DE PODER

Durante décadas, a Associação de Futebol do Porto trocou a presidência da FPF pela do Conselho de Arbitragem. O amigo de infância Pinto de Sousa não passou de peão ao serviço da causa.

GRANDE CARISMA

Domínio instintivo das técnicas mais agressivas de comunicação, para lá de um grande carisma, sobre uma comunicação social preguiçosa e reverente que tem ajudado a criar o mito.

João Querido Manha